quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Eu, derrotado

Para um derrotado contumaz, os livros de auto-ajuda fazem todo o sentido. Os autores dessas obras se aproveitam da nossa ingenuidade em acreditar que, amanhã ou em algum momento no futuro, as coisas vão dar certo. Se fracassamos ontem e hoje, alguma força do universo (ou em nós mesmos) nos fará vencer amanhã. É uma questão de tempo e de paciência. 

O torcedor de futebol é, antes de tudo, um grande apaixonado pelo fracasso. Ninguém convive tão bem com a frustração e com a derrota como um bom torcedor de futebol. Mesmo chutada pra longe por um atacante caneludo, a esperança da vitória nunca abandona o estádio; ela sempre está ali, renascendo a cada apito inicial do juiz. Ouso dizer que são as derrotas (e não as vitórias) que fazem aumentar o amor por um clube.

Para mim, a maior derrota do meu time aconteceu há mais 10 anos, em julho de 2000. Eu não passava de um pivete metido a besta. Entendia tudo de futebol: das formações táticas, dos tipos de chuteira, da história gloriosa e dos ídolos que eu só conhecia pelos pôsteres colados na parede da sala. 

O jogo era entre São Paulo e Cruzeiro pela final da Copa do Brasil. A partida seria difícil, pois era fora de casa e o tricolor tinha empatado o primeiro duelo, no estádio do Morumbi. Para sermos campeões, precisávamos ganhar ou empatar por 1x1.

Antes de começar o jogo, o meu vizinho, um autêntico corintiano, me provocou. Não se sabe como, ele conseguiu uma enorme bandeira do Cruzeiro e a colocou em sua janela, que, infelizmente, dá de frente para a minha. Segundo meu vizinho, o Cruzeiro ganharia fácil. Ele quis até apostar, mas, como sempre achei que essa coisa de aposta sempre dá azar, não aceitei. 

Minha mãe era outra que aderiu a causa celeste. Ela é mineira e, por isso, resolveu que o Cruzeiro merecia o seu apoio. É de se indignar, né? Como uma mãe abandona o filho numa situação dessas para dar lugar ao bairrismo do pão de queijo? Na minha casa, eu estava sozinho. 

O primeiro tempo terminou zerado. O jogo estava truncado, pra não dizer feio. Fiquei nervoso, como era de se esperar. Durante intervalo fui tomar um banho, somo sempre faço, para esfriar a ansiedade. Não há nada mais chato que intervalo de jogo de futebol. 

No segundo tempo, o São Paulo marcou um bonito gol de falta. Comemorei como um louco: subi no parapeito da janela e comecei a xingar toda a árvore genealógica do meu vizinho corintiano. Seríamos campeões, cara! Faltavam 10 minutos para o final do jogo e o Cruzeiro precisava virar. O empate era nosso.

Aos 36, o time azul empatou e a luz amarela se acendeu entre os torcedores do São Paulo. Mesmo assim, precisávamos apenas segurar mais alguns minutos e seríamos campeões. 

Aos 43, o Cruzeiro conseguiu uma falta perigosíssima na entrada da área. Se você for torcedor fanático de algum time, conhece aquele pressentimento que bate segundos antes da coisa ir pro limbo. Por algum acaso do universo, nós sabemos que a vaca vai pro brejo antes mesmo do primeiro passo. Foi isso que senti nos segundos que antecederam aquela falta. 

O jogador do Cruzeiro chutou. A bola nem foi tão forte assim, mas desviou na barreira e entrou no canto direito do goleiro. Pronto, o mundo acabou ali, fiquei péssimo. O fracasso do  time é sempre  mais nosso que dos jogadores, né? Na vitória, comemoramos em grupo; a derrota é individual. Naquele dia,  principal derrotado era eu.

Meu vizinho apareceu na janela, gritando como um porco. Minha mãe mandou a frase de consolação, algo como “na próxima vocês ganham”. Sim, a gente sempre espera pela próxima.

A esperança continua em campo.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Leandro Machado prefere a terceira pessoa

Nascido no glorioso fevereiro de 1989, Leandro Machado se orgulha de ser um dos poucos remanescentes dos anos 80 ainda em atividade. “Quando nasci, o Bon Jovi ainda usava cabelo grande”, conta. Morador da Zona Leste de São Paulo, ele se admira ao conhecer pessoas que não sabem que o mundo já foi dividido por um Muro de Berlim. “Na minha época só se falava nisso”, diz.

Leandro começou cedo na militância política: contrariando as ideias conservadoras de seu pai, que ainda acreditava no poder supremo de Paulo Maluf, o rapaz se decidiu pelo comunismo aos dez anos de idade. Por isso, ao ter de escolher entre o azul e o vermelho, ficava sempre com o encarnado. “O meu Power Ranger preferido sempre foi o vermelho, por exemplo”, diz.

É claro que, ao se sentar no troninho de poder que seus pais lhe deram a seguir, Leandro deu adeus às armas e se rendeu aos prazeres do McLanche Feliz. O que era o Power Ranger vermelho ao lado de uma coca-cola com hambúrguer?

Aos onze anos, o rapaz começou a pensar em sua carreira. “A ideia de um mundo cheio de monstros gigantes nunca me saiu da cabeça”, conta. Leandro escolheu salvar o mundo sendo policial, bombeiro, Bruce Willis, motorista de ambulância ou Cavaleiro do Zodíaco. O mercado não o absorveu, infelizmente. “A culpa não foi minha”, conta o garoto, lembrando que a culpa das mazelas do mundo deve sempre cair sobre os ombros da Igreja, do sistema ou do José Dirceu.

Leandro logo percebeu que nunca tivera vocação para herói. “De super, só tenho o superego”, define, puxando um bloquinho para anotar a própria frase. Na verdade, o garoto decidiu apenas trocar a armadura por uma guitarra velha. Tornou-se roqueiro e um rebelde com calça (“jeans e regada”, lembra).

Três acordes, letras engajadas e um all star velho. “Era incrível como, naquela época, tudo cheirava a espírito jovem”, diz. Compôs diversas músicas – todas reivindicando a liberdade dos alunos, frente à repressão da diretora da escola onde estudava. “Ela nunca nos deixava jogar bola depois do horário da educação física”, relata. Juntamente com seus colegas de banda (bando?), o garoto chegou a praticar atos terroristas, como esvaziar os pneus do veículo da diretora. Por essas circunstâncias do mainstream, suas músicas não chegaram às multidões, pois os shows não passavam dos limites da garagem do seu amigo Renato.

No ensino médio (mediano?), a rebeldia roqueira deu lugar aos hormônios. Como diz o poeta, aos 15 anos tudo é eterno. Por isso, Leandro confessa ter sido adepto do casamento imediato ao conhecer as pretendentes. “Cheguei a pedir a mão de 23 garotas”, diz. Obviamente nenhuma delas cedeu aos (des)encantos do rapaz.

Chegando ao fim do colégio, o jovem se viu confrontado por sua professora de Português. “Ela simplesmente me perguntou o que eu queria fazer da vida”, conta. Confuso, ele preferiu não responder.

Um dia, percebeu que sempre gostara de escrever, mas sua atração sempre foi por outro, pelo estranho que não era ele. Talvez por suas raízes mais ou menos comunistas, Leandro sempre preferiu a terceira pessoa. “Acho que conhecer o outro é encontrar a si próprio. É isso o jornalismo na minha vida, é para isso que ele serve”, analisa.

Talvez essa seja a explicação psicológica da coisa. Na prática, Leandro desejava mesmo era salvar o planeta dos monstros gigantes. Porém, ao entrar na faculdade, viria a descobrir que essa não é uma atribuição do jornalista. “Na primeira aula, uma professora sugeriu que, quem estivesse ali para salvar o mundo, podia se retirar da sala”, revela, constrangido.

Mas ele, Leandro Machado, brasileiro da Zona Leste de São Paulo, nascido na época em que o Bon Jovi ainda tinha cabelo, comunista aos dez anos, roqueiro e adepto do casamento imediato, não desiste ao ouvir uma frase desanimadora.

Quatro anos depois, ele escreve, procura o “eu” dentro dos outros e chama os monstros gigantes para o ringue. “Alguém quer brigar?”, pergunta.

*Esse texto foi escrito para concorrer a uma vaga no Curso Abril de Jornalismo. O tema era "quem sou eu e por que jornalismo". Espero conseguir. Torçam por mim. Adeus.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Do lado de dentro [conto]

Por muito tempo me tranquei em casa, afundado na inércia e na solidão dos meus amigos do Orkut. Enquanto isso, lá fora, uma cidade inteira tocava a minha campanhinha.

Um dia, abri a porta.