As primeiras gotas caíram ralas, às quinze horas e trinta minutos. O vendedor de balas, que fazia ponto na calçada junta ao córrego, gritou: “Olha chuva!”. Todos levantaram as cabeças ao céu e viram o negrume das nuvens que cobriam a cidade: a calmaria se esvaiu juntamente com a poeira do asfalto. O chão preto ganhou nova textura, estava liso.
Na praça, um senhor deixou de lado as pedras do dominó. “Vai molhar a roupa no varal”, disse, e logo saiu correndo. Os demais velhos não compartilharam o medo e foram se esconder num açougue do outro lado da rua. “No meu tempo, não chovia tanto assim...”, lembrou um senhor, perspicaz.
O vendedor de balas guardou um pacote no bolso traseiro; em seguida tirou, não se sabe de onde, um enorme saco de guarda-chuvas: alguns eram coloridos, outros, de bolinhas amarelas sobre o fundo negro.“Olha o guarda-chuva!”, anunciou, aumentando o tom da voz por conta do estrondo das águas, que caíam forte. Uma grã-fina quis saber quanto custava um: havia esquecido o dela em casa. “Chove muito por aqui, não?”, disse, mexendo nos cabelos, que já ganhavam nova forma.
Um barulho esquisito cortou o ar: dois carros se chocaram em frente ao açougue. Os motoristas, enfurecidos, saíram dos automóveis e mancharam de água as suas camisas engomadas. “Você não sabe brecar?”, perguntou o primeiro, raivoso. “Eu sei, você que breca demais”, retrucou o segundo, com raiva.
Na rua ao lado, o senhor do varal desistiu de correr, pois se lembrou da esposa, que estava em casa e, provavelmente, já salvara as roupas da aguaceira. “A chuva logo passa”, disse a si mesmo, convencido que retornaria ao dominó. Ao caminhar, ele escorregou no piso molhado e torceu um pé. Retorcendo-se de dor, pegou o celular para ligar à ambulância. “O pior da chuva é o mundo que cai com ela”, lamentou-se.
A grã-fina arrumava os cabelos quando a água do córrego inundado lhe molhou os sapatos. “Credo!”, disse, com nojo do líquido barrento que cobria seus pés. “Eu não sabia que isso aqui alaga, moço”. O moço era o vendedor de guarda-chuvas. “Ninguém nunca sabe. Toda vez que inunda é uma surpresa”, respondeu ele, mostrando os dentes.
No açougue, os velhos lançavam conversa fora quando os motoristas acidentados trocaram socos. “Você sabe o quanto vai custar isso aqui?”, perguntou um deles – não se sabe qual –, apontando para uma parte amassada do veículo. De repente ouviram a sirene de uma viatura da polícia. “É melhor ir embora. Anota aí o meu telefone”, sugeriram ambos, parando a luta imediatamente.
O temporal diminuía aos poucos. Sentindo os pingos menores, o senhor caído levantou: estava bem, sem dor, e nada de ambulância! Os velhos do açougue retornaram à paz da praça, e à guerra do dominó. A grã-fina tirava os sapatos encharcados quando seu táxi chegou. Depois ela percebeu, espantada pela má sorte, que não tinha dinheiro para pagar a corrida.
O vendedor ainda segurava os guarda-chuvas enquanto caíam os últimos pingos. Pensou em voltar às balas. Parou um instante...Depois se virou ao céu: entre as nuvens, um raio de luz iluminava a cidade. “Olha o sol! Vai uma sombrinha aí, dona?”, gritou.
Na praça, um senhor deixou de lado as pedras do dominó. “Vai molhar a roupa no varal”, disse, e logo saiu correndo. Os demais velhos não compartilharam o medo e foram se esconder num açougue do outro lado da rua. “No meu tempo, não chovia tanto assim...”, lembrou um senhor, perspicaz.
O vendedor de balas guardou um pacote no bolso traseiro; em seguida tirou, não se sabe de onde, um enorme saco de guarda-chuvas: alguns eram coloridos, outros, de bolinhas amarelas sobre o fundo negro.“Olha o guarda-chuva!”, anunciou, aumentando o tom da voz por conta do estrondo das águas, que caíam forte. Uma grã-fina quis saber quanto custava um: havia esquecido o dela em casa. “Chove muito por aqui, não?”, disse, mexendo nos cabelos, que já ganhavam nova forma.
Um barulho esquisito cortou o ar: dois carros se chocaram em frente ao açougue. Os motoristas, enfurecidos, saíram dos automóveis e mancharam de água as suas camisas engomadas. “Você não sabe brecar?”, perguntou o primeiro, raivoso. “Eu sei, você que breca demais”, retrucou o segundo, com raiva.
Na rua ao lado, o senhor do varal desistiu de correr, pois se lembrou da esposa, que estava em casa e, provavelmente, já salvara as roupas da aguaceira. “A chuva logo passa”, disse a si mesmo, convencido que retornaria ao dominó. Ao caminhar, ele escorregou no piso molhado e torceu um pé. Retorcendo-se de dor, pegou o celular para ligar à ambulância. “O pior da chuva é o mundo que cai com ela”, lamentou-se.
A grã-fina arrumava os cabelos quando a água do córrego inundado lhe molhou os sapatos. “Credo!”, disse, com nojo do líquido barrento que cobria seus pés. “Eu não sabia que isso aqui alaga, moço”. O moço era o vendedor de guarda-chuvas. “Ninguém nunca sabe. Toda vez que inunda é uma surpresa”, respondeu ele, mostrando os dentes.
No açougue, os velhos lançavam conversa fora quando os motoristas acidentados trocaram socos. “Você sabe o quanto vai custar isso aqui?”, perguntou um deles – não se sabe qual –, apontando para uma parte amassada do veículo. De repente ouviram a sirene de uma viatura da polícia. “É melhor ir embora. Anota aí o meu telefone”, sugeriram ambos, parando a luta imediatamente.
O temporal diminuía aos poucos. Sentindo os pingos menores, o senhor caído levantou: estava bem, sem dor, e nada de ambulância! Os velhos do açougue retornaram à paz da praça, e à guerra do dominó. A grã-fina tirava os sapatos encharcados quando seu táxi chegou. Depois ela percebeu, espantada pela má sorte, que não tinha dinheiro para pagar a corrida.
O vendedor ainda segurava os guarda-chuvas enquanto caíam os últimos pingos. Pensou em voltar às balas. Parou um instante...Depois se virou ao céu: entre as nuvens, um raio de luz iluminava a cidade. “Olha o sol! Vai uma sombrinha aí, dona?”, gritou.
