segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Quem é você, Leandro?

Enquanto a cidade vira um lixão de santinhos, nós votamos em Sergio Malandro, Dinei da Fiel e Netinho de Paula. Que merda, cara; realmente me senti constrangido quando saí de casa para votar.

Que porcaria era aquela? Papel e lama, tudo misturado! Eu vou votar num cara que suja a minha cidade? Que polui nossos ouvidos com jingles em altos volumes? Quantas toneladas de papel? Com quantas árvores se faz uma eleição?

Isso tudo me lembrou a cena do filme “O Jardineiro Fiel”, quando os africanos matam o cara sem nem saber o motivo. Simplesmente matam, porque os mandam matar. Era só mais um. Assim como entregamos santinhos como se fosse só mais um. É apenas algumas toneladas de lixo na rua.

O que nós fazemos? Nada! Continuamos e continuaremos achando que está tudo bem. O emprego aumentou, a renda também, arranjamos um trabalho de 700 reais e compramos a porcaria do tênis da moda! Jogamos tudo no chão e bebemos a última cerveja para mentirmos a nós mesmos. Que raiva! Nada funciona nessa merda! É tudo pela metade.

Somos um país de motoboys, operadores de telemarketing e entregadores de santinhos por 30 reais ao dia. Somos jovens incompletos, vivemos o passado de nossos pais. É para isso que nascemos? Que geração é a nossa, cara? Seremos lembrados pelo quê?

Cansei dos anos 60, não agüento mais os 80. Porcaria de ditadura, Diretas Já, passeatas, guerrilha, caras pintadas, tortura, Collor e Médice! Nada disso funciona mais comigo! E nós, meu amigo, e nós? O que fizemos? Pelo quê lutamos? Mudamos o quê? Que angústia é essa?

sábado, 4 de outubro de 2008

A equação da infinita saudade

Eu tive certeza que me tornei um nostálgico quando, na sexta-feira, experimentei a mostarda de uma dessas lanchonetes da Zona Sul.

– Que bela mostarda vocês têm aqui, hein?! – me deu vontade de dizer, ironizando.

Antigamente, a mostarda era saborosa, azedinha. Hoje, não: ela está mais doce que o brigadeiro feito pela minha mãe aos domingos. Não só a mostarda mudou, o ketchup também, a vida.

Eu sei que com dezenove anos é difícil sentir saudade de alguma coisa. Muitos dirão que é a melhor fase e tal, e eu concordo. Mas sinto falta, sim! Ninguém pode me tirar esse direito!Afinal estamos num país democrático. Ou não?

As coisas mudaram, meu amigo. O mundo não tem mais a graça de alguns anos atrás. As escadas mudaram de lugar, não batemos mais figurinhas, nada de futebol na rua sem saída! E as traves de madeira, cadê elas?

O fanatismo pelo maior time do mundo ainda existe? Não, com certeza. Bom o tempo em que a preocupação era perder todos os tazos na esquina. Esconde-esconde na esquina. Ah, lá vem o Seu Pascoal trancar o portão. Onde se esconder agora, meu amigo? Se for na Dona Ana, ela solta os cachorros. E os meus cachorros? A Princesa, a Grampola, o Pequenino?

Cem gramas de pururuca, por favor! Fogueira em dias de frio. Aliás, ainda existe frio em São Paulo? Chegar molhado de chuva em casa. O que é isso, meu filho, por que tão ensopado? Sopa à noite, hambúrguer à tarde, refrigerante de manhã. E amanhã, futebol ou matemática, professora?

E lá vem o Leandro pela esquerda, passa pela equação, dribla o gráfico, deixa no solo a divisão, mas perde a bola para o incógnito amor ao quadrado da Bruna, da Talita, da Jéssica... Que pena! Perdeu todo aquele jeito sem vergonha. Mas que vergonha, nem brincar você sabe mais, meu Deus.

Se me resta mesmo Deus. Adeus, tempo nenhum. Adeus, passado. Adeus, leitor. Ainda há algum?

domingo, 28 de setembro de 2008

Aos meus amores partidos

Eu seria o mais tranqüilo dos homens se você olhasse para mim: dormiria com o som de bossas e, no raiar do sol, mais ou menos na hora que meus sonhos chegam perto dos seus, eu acordaria dando bom dia ao rádio relógio, que tanto me deprime em manhãs normais. Se me quisesses, eu lembraria de ti em todos os momentos do dia: no caminho, na escola, em tardes ensolaradas e tristes; veria seu rosto em todos os espelhos do mundo, em todos os vidros de carro, nos pensamentos partidos, nas janelas quebradas, em ventos perdidos. Para falar com você eu seria Chico, Vinicius, Drummond e o maior dos poetas menores que eu encontrasse em bares sem coração. Ah, garota, se fosses louca por mim, chorinhos e poemas nas páginas eu faria, cheios de fiéis amores e palavras criadas. E se um dia brigássemos, eu daria uma volta no mundo em oitenta segundos, só para encontrar a melhor das desculpas por te odiar naquele instante banal. Ah, menina, goste de mim, olhe pra mim, me deixe feliz, me faça normal, que eu canto uma música, recito um poema, faço um desenho, resolvo os problemas e reinvento as estrelas. Se você olhasse para mim, meu amor, eu rimaria palavras cruzadas, objetos diretos e periódicas tabelas; faria dos metais não-metais. Quem sabe um dia, garota, você perceba a minha presença e, diante de ti, eu perca o medo e me transforme em mim mesmo.